Laura Reichental nasce em Nova York em 16 de janeiro de 1901. Seu pai, imigrante judeu polonês, era alfaiate e um socialista engajado. A mãe, Sadie, era filha de imigrantes judeus. No Brooklyn, Laura tem infância pobre e instável, sendo educada pelos rigorosos princípios políticos de Nathaniel. Entre a política e a poesia, aos 15 anos Laura opta pela última, para reprovação do pai. Mais tarde, consegue uma bolsa de estudos e ingressa na prestigiada Universidade de Cornell, se concentrando em línguas e literatura. Logo abandona a vida universitária para se tornar poeta e pensadora independente. Em 1923 casa-se com o professor de história Louis Gottschalk. Laura Riding Gottschalk (o nome do meio sendo invenção sua), muda-se para Louisville e passa a publicar poemas em revistas literárias pequenas como Contemporary Vérse e Poetry. 1924 é um ano importante: ganha um prêmio da revista The Fugitive, sendo saudada como "a maior revelação da poesia norte-americana" pelo grupo de poetas-críticos (fortemente influenciados por Eliot) que formaria a infantaria da Nova Crítica.lo Por terem projetos de vida diferentes, Laura e Louis se divorciam. "Os fugitivos" também sentem dificuldade com a personalidade forte de Riding e as relações esfriam. Laura parte para Nova York, onde tem um breve período boêmio, tornando-se amiga íntima de Hart Crane e conhecendo figuras como e.e. cummings, Malcolm Cowley e Edmund Wilson.

No fim de 1925, a convite de um admirador, o escritor e poeta inglês Robert Graves (autor do clássico The white goddess), Riding parte para Londres para trabalhar com ele num livro sobre poesia modernista. O impacto de Riding na vida e obra de Graves (então conhecido por suas memórias como ex-combatente na Primeira Guerra, Goodbye to all that) foi imenso. Os 14 anos de parceria emocional e intelectual foram produtivos para ambos. Nos três primeiros anos na Inglaterra, Riding, Graves e sua mulher Nancy formaram o que chamavam de "Trindade", dividindo tarefas domésticas e o cuidado com os filhos de Graves. No mesmo ano, a poeta muda seu nome, legalmente, para Laura Riding. Nesse período conhece a nata do modernismo anglo-americano: Eliot, Stein, Windham Lewis, Yeats e Pound. Seu primeiro livro, The c/ose chaplet, é publicado em 1926 pela editora de Leonard e Virginia Woolf. No ano seguinte lança, em parceria com Graves, um dos diagnósticos pioneiros da poesia contemporânea, A survey oi modernist poetry.

O livro causa polêmica por defender, por exemplo, os "modernismos" de Gertrude Stein e cummings, tendo também influência seminal no desenvolvimento da Nova Crítica. Elogiada por poetas em ascensão como Auden e Stephen Spender, a figura "exóticà' de Riding começa a atrair atenção. No intenso e prolífico período londrino, publica livros ambiciosos, como os próprios títulos indicam: Anarquia não é o bastante e Um panfleto contra antologias (este último em parceria com Graves). Com Graves, funda a editora Seizin Press, publicando seus próprios livros, bem como Acquaintance with description, de Stein. Na conservadora Inglaterra, Riding teve de se impor por seus próprios méritos. Ela não se encaixava nos pré-requisitos do "clube". A recepção a seu trabalho, no entanto, quase sempre é hostil (ser uma mulher inteligente, de descendência judaica, norte-americana e poeta, nos tensos e anti-semitas anos 30, não contribuía muito para sua aceitação na cena literária). Como Jed Rasula escreveu: "Numa atmosfera poética controlada pela presença e os pronunciamentos augustos de T.S. Eliot, o primeiro trabalho certamente surgiu como uma afronta à recém-proclamada dignidade que a poesia havia alcançado. Ela surgiu, como Atena, armada até os dentes" (''A renaissance", 167).

Tudo parecia correr bem até que um evento trágico mudaria a vida da chamada "Trindade". Em 1929, durante uma discussão em que estavam presentes Nancy, Graves, e um "discípulo" de Laura (Geoffrey Phibbs), Riding se atira da janela do quarto andar do apartamento londrino (Graves a segue, se atirando do terceiro andar). Laura sobrevive da queda, passando por várias cirurgias e uma temporada no hospital. O acontecimento repercute, pois Graves é uma figura literária conhecida. Em busca de sossego e de uma vida mais barata, tão logo Riding se recupera os dois partem para a França e depois para Majorca, onde vivem seis anos de intensa atividade intelectual. Na ilha espanhola Riding recebe visitas esporádicas de amigos e admiradores, retoma a editora artesanal, sempre envolvida em projetos coletivos (como a revista Epilogue). A vida paradisíaca e utópica na ilha é interrompida pela explosão da Guerra Civil espanhola, em 1936, que os obriga a abandonar a Espanha em poucas horas. De volta a Londres, organiza e publica sua principal obra, Collected poems (1938), reunindo 181 poemas selecionados de seus nove livros anteriores.

No ano seguinte, a convite de um amigo, o jornalista Tom Matthews, Riding, Graves e alguns amigos partem para os EUA. Em sua estadia, ela conhece Schuyler Jackson (que havia escrito uma crítica altamente elogiosa a Riding na revista Time). Durante a temporada na fazenda de Jackson e sua família (mulher e quatro filhos), os dois se apaixonam. Riding rompe com Graves, que volta para a Inglaterra. Pouco tempo depois, em circunstâncias no mínimo estranhas, a mulher de Jackson enlouquece e é internada num manicômio. Em 1941, Riding casa-se com Schuyler. Nessa época, já havia abandonado a poesia. Em 1943, o casal se muda para uma pequena fazenda em Wabasso, Plórida. Quase isolados do mundo a não ser por intensa correspondência (na casa não havia luz nem telefone), o casal passa a levar uma vida rural, dedicando-se ao antigo projeto de Riding, um dicionário, e ao negócio de frutas cítricas.

Só em 1962 a escritora voltaria à cena literária, agora assinando como Laura (Riding) Jackson, deixando explícita sua identidade de poeta como sendo algo do passado (porém enfatizando sua presença autoral). Nesse ano ela grava um programa para a BBC de Londres, onde explica pela primeira vez as razões por ter abandonado a poesia. Viúva de Schuyler (que morre em 1968), e depois de muito tempo sem ser reeditada (a última edição de Collected poems sendo de 1938), em 1970 sua poesia volta a circular em livro. Nesse retorno, passa a chamar a atenção de uma nova geração de leitores, críticos e escritores, como Paul Auster, que escreve: "Nenhum escritor exigiu mais das palavras do que Laura Riding". Em 1972, Riding publica a prosa meditativa The telling. Nos anos 80, escreve em profusão (não poesia) e publica com freqüência em revistas. Continua polemizando com críticos, enquanto acompanha a reedição de seus livros. Morre em 2 de setembro de 1991.11 No início do mesmo ano, Riding conquistou o prestigioso Prêmio Bollingen em poesia. O reconhecimento, como costuma acontecer, veio tarde demais.

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Rodrigo Garcia Lopes,
Comentários extraídos do livro
Mindscapes - Poemas,
Editora Iluminuras, 2004.

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