AUTO-RETRATO

Entre a espuma e a navalha sou legenda
O espelho neutraliza o ângulo da morte,
a barba estrangulou a metafísica
e o problema do mal é bem remoto.
Aqui sim !
Aqui resistirei à mímica,
ao dicionário e ao laboratório !
- a herança do punhal brilha de novo
- o fantasma de Abel não me intimida.
Vejo a testa crescer
entre espirais de fumo,
o olhar que não vacila,
da ruga a pré-história
e o peito rasgado
pela fúria do poema.

Aqui sim,
aqui iniciarei a espécie nova,
aqui derrotarei o homem-harpa
e pronto estou para a descoberta do sexo.
O pincel dá-me o poder do patriarca,
a navalha redua a timidez e o medo,
o palavrão rola na boca e salva o mundo.

Do livro A linha Imaginária
Edição Norte - 1951

 

PRIMEIRO DE MAIO

Surja esse verso de maio,
trazido pelos arcanjos,
um verso que faça maio,
o maio dos desenganos,
e fel transforme em doçura,
rendilhando de ternura,
os meus fracassos humanos.

Um verso que me decifre,
nas horas de ansiedade,
que não sendo antologia,
seja a minha humanidade,
levando por onde for,
os meus suspiros de amor
e gritos de liberdade.

Um verso assim como esse:
"Proletários de todo o mundo,
( uni-vos )" .

(Quartel da Companhia de Guardas da Polícia Militar do Estado do Pará, 1º de Maio de 1964 )

HOMENAGEM A LEON BOY

Saberás quem somos
pela ausência da voz,
pelo rio envelhecido
e na fadiga das frases dissipadas.
Diante de ti a nudez falará por nós
pois as dádivas e sonhos dispersamos
e as mãos vazias dissiparam o tempo.
A fêmea e a cidade conquistamos,
mas do Invisível
a rosa que colhermos será sempre
viçosa e fresca sobre a nossa tumba.
Somos da terra o sal
mas nem sabemos
e deitados na Parábola morreremos
na primavera das palavras novas,
no segredo que faz nossa alegria.
Estrangeiros na pátria que elegemos
vazios do santo amor,
pobres da Graça,
a saudade da hora não cumprida,
a tristeza do rei que inveja o escravo.

Do livro A linha Imaginária
Edição Norte - 1951

 

POEMA

Sobre o piano - rosas
entre as rosas o azul
e o azul não era azul
era vermelho.
Tocavam Bach
e era como luz que transitasse
no mistério.
Todos estavam silenciosos
e no fulgor das pupilas
envenenadas pelo medo
havia uma estranha dor de morte
prematura.

Minha mãe chegou a mim e disse: fica
meu avô me segurava do retrato,
meus netos me acenavam do futuro.
Porém eu estava sitiado
entre a fuga e a tocaia.
A nuvem carregou-me adormecido,
varei a criação,
transpus o limbo,
quando acordei,
meu pai,
já era o céu.

Do livro A linha Imaginária
Edição Norte - 1951

 

 

CANÇÃO DOS QUARENTA ANOS
Poema, suspende a taça
pelos dias que vivi,
Espelho, diz-me em que jaça
mais fiel me refleti.
Quarenta anos correram
e neles também corrí.

Quarenta anos, quarenta !
(Quantos mais ainda virão ?)
Morrerei hoje de infarto
ou amanhã de solidão ?
Serei pasto da malária ?
Serei presa do avião ?

A morte engendra a esperança.
A morte sabe fingir.
A morte apaga a lembrança
da morte que vai ferir.
E em cada instante que passa
a morte pode surgir.

Quem pode medir um homem ?
Quem pode um homem julgar ?
Um homem é terra de sonhos,
sonho é mundo a decifrar,
naveguei ontem no vento,
hoje cavalgo no mar.

Hoje sou. Ontem, não era.
Amanhã, de quem serei ?
Um homem é sempre segredos.
(Por qual deles purgarei ?)
Dos meus netos, qual o neto,
em que me repetirei ?

Que virtudes foram minhas ?
Que pecados confessar ?
Que territórios de enganos
a meus filhos vou legar ?
A quem passarei meu canto
quando meu canto passar !

Ah! como a vida é ligeira !
Ah! como o tempo deflui !
Este espelho não mais fala
da criança que já fui,
das minhas rugas ruindo
apenas um nome rui

Quedê rede balançando ?
Quedê peixinhos do mar ?
Quedê figo da figueira
pru passarinho bicar ?
E o anel que tu me deste
em que dedo foi parar ?

Dezembro chama janeiro,
(fevereiro vai chamar ?)
Monte-Cristo se me visse
não iria acreditar.
Como está velho, diria
a donzela Dagmar.

Um homem cresce espalhando
o reino em que foi feliz.
Onde Athos ? Onde Porthos ?
Onde o tímido Aramis ?
Um homem cresce querendo
e cresce quando não quis.

Crescer é rima de vida
mas também é de morrer.
Crescer é terna ferida,
que só dói no entardecer.
Em cada raiz da morte
há sempre um verbo crescer.

E cresço: macho e poeta.
(Subo em linha, volto em cor)
cresço violentamente,
cresço em rajadas de amor,
cresço nos filhos crescendo,
cresço depois que me for.

Cresço em tempo e eternidade,
cresço em luta, cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor,
cresço no povo crescendo,
cresço depois que me for.

E cresço na aurora livre
galopando esse corcel.
cresço no verso espumando
entre as linhas do papel.
cresço rubro de esperança
na barba de Don Fidel.

Quarenta anos, quarenta !
( E nem sequer percebi ! )
Quarenta anos correram
e neles também corri.
E nesses quarenta anos,
Oitenta de amor por ti.

Violão de Rua - 1962
(Cadernos de Povo Brasileiro)

 

 


 

Ruy Guilherme Paranatinga Barata
( 1920 - 1990 )