O PoemaO Poema

José Lezama Lima

Poeta, ensaísta e novelista além de patriarca invisível das letras cubanas, José Lezama Lima nasceu no dia 19 de dezembro de 1910 em Campamento de Columbia, nas proximidades de Havana e é considerado um dos escritores mais importantes da literatura latinoamericana deste século tendo grande influência na obra de diversos escritores hispanoamericanos e espanhóis.

"Nos milênios exigidos por uma cultura, onde a imagem atua sobre determinadas circunstâncias excepcionais, ao converter-se o fato numa vivente casualidade metafórica, é onde situam-se essas eras imaginárias. A história da poesia (ou a poesia da história - acrescentaríamos) não pode ser outra coisa senão o estudo e a expressão das eras imaginárias"

José Lezama Lima
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Muerte de Narciso
(1937)

Enemigo Rumor
(1941)

Aventuras Sigilosas
(1945)

La Fijeza
(1949)

Dador
(1960)

Poesía Completa
(1985)

Arístides Fernández
(1950)

Analecta del Relojo
(1953)

La Expresión
Americana

(1957)

Tratados en La
Habana

(1958)

La cantidad hechizada
(1970)

Paradiso
(1966)

Oppiano Licario
(1977)

 



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"A poesia é como o ar, toca o homem e o define, lhe dá figura e contorno porém o ar é irrepresável. Um dos milagres da poesia é que toca o fogo e é ao mesmo tempo o fogo transfigurado. Isso não deve nunca esquecer o poeta."

§

“A grande plenitude da poesia correspondente ao período católico, com seus dois grandes temas, onde está a raiz de toda grande poesia: a gravitação metafórica da substância do inexistente e a maior imagem que talvez possa existir, a ressurreição.”

§

"Se ao final de sua vida, um escritor acredita ter esclarecido ou aumentado o fluxo criador de sua época - ou, mais simplesmente, de seus amigos - sentirá como se sua obra houvesse produzido um acréscimo, um desenvolvimento, e essa é a sua principal utilidade. Fazer parte de um estilo, somando a ele, levando-o a sua plenitude, propicia sentir, como esboça o soneto de Mallarmé dedicado a Poe, as mutações e a eternidade girando incessantemente em seu mais secreto ordenamento".

 

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com dois anos
aos 35 anos
Lezama Lima
Lezama Lima, Lilian Esteban, Julián Orbón e Alejo Carpentier em 1935
com sua mãe em 1953
com suas irmãs
Lezama Lima
em seu estúdio - 1960
Lezama Lima
Lezama LIma
Lezama Lima
Galimar, Cortázar, Lezama,  Ugumé Karvalis,  desconhecido,  José Triana e María Luisa
com sua esposa
caricatura de Juan David

E- Duplo erro, sedento

O erro compreende a sua figura
no centro novo e na esfera nova.
Duplo erro, sedento
movem-se os números na parede
da recordação exata e as boas-vindas.
Risco novamente aquelas letras
do convite com que amanheciam
as nuvens novas e a dulcificada
roda da tortura.
Onde se alojaram os mistérios,
as noites gêmeas e as coleções
de ídolos perenes?
A roda da poderosa nuvem imperial
o parafuso já não golpeia
as costas densas.
O parafuso que rompe o mar em dois:
os poderosos deuses abolidos
e o presságio que toca e persegue.
Gira a nuvem sob o sonho
e ali investe contra novos reinos
da pronunciada melodia.
Depois do cordeiro recém-nascido
sem perguntas na apaziguada prata,
os impérios do carvão, os nebulosos
paraísos sem proporção e justiça.
Aqueles que esquecem que a elegância,
veado alimentado de orvalho ou polpa de neve
cortesã, é o ser iminente que penetra
na nuvem central, o corpo da amêndoa:
a soberania celestial do fogo em evasão.
Fugia da terra grávida,
sedento Marco Pólo entre carbúnculos,
estabelecendo os limites do sonho vago.
Acreditava que encontraria entre as rochas douradas
o peixe ainda sonâmbulo e separado
- única espécie de um metal vivo -
da noite e a sua sombra dançante.
Ali nas flautas a maldição nascente
e a nova cidade do corpo em fúria,
as pontes sombrias onde animais de canela
destroem na noite as coleções de porcelana.
Aberta ali, no instante em que a flor
assimila e se une ao inseto,
grandes pirâmides de orvalho
o golpe que engendra o cravo.
Ecos desabam, rumoroso presságio,
recua a extensa coluna de um fogo trêmulo
incha em ti, soluça o murmúrio,
invoca a ternura dos véus da água.
E as ninfas entre água e escuridão
transbordam de graça e som, os seus mantos,
os cabelos eternos diante do espelho, dizem:
define-me, não é nos meus passos, é na estátua
onde o tempo me devora e na areia
que cai das mãos que está o tempo predileto,
o único tempo criador sem o seu par e não o flanco
sangrando até o crepúsculo, e à nossa frente:
a estátua desconexa e um só centro .

A cavalaria provoca um remoinho
e se inclina à vista das águas não tocadas
a lua o inseto, e o cavaleiro.
O que declina à deriva até o centro.
O nu se nutre dos seus vestígios.
A lua, sonho duplo da lua vagarosa,
desce tocando as folhas diante dos amantes.
As folhas pintadas pelos címbalos do exílio
fabricam a areia e deslocam a chuva!

(Trad. Jorge Henrique Bastos)

 

 


A Prova do Jade

Quando cheguei à subdividida casa
onde tanto poderia encontrar o falso
relógio de Potsdam os dias de visita
do enxadrista Von Palem, ou o periquito
de porcelana da Saxônia, favorito de Maria Antonieta.
Estava ali também, em sua caixa de pelúcia
negra e de algodão envolto em tafetá branco,
a pequena deusa de jade, com um grande ramo
que passava de uma para a outra mão mais fria.
Ascendi-a até a luz, era o antigo
raio de lua cristalizado, o gracioso bastão
com que os imperadores chins juravam o trono,
e dividiam o bastão em duas partes e a sucessão
milenária seguia subdividindo e sempre ficava o jade
para jurar, para dividir em duas partes,
para o yin e para o yang.
Mas o provador, ocioso de metais e de jarras,
me disse com sua cara rápida de coelho cor caramelo:
apóie-se na face, o jade sempre frio.
Senti que o jade era o interruptor,
o interposto entre o pascalino entre-deux,
o que suspende a afluência claroescura,
a espada para a luminosidade espelhante,
a sílaba detida entre o rio que impulsa
e o espelho que detém.
Dá prova de sua validez pelo frio,
isca para o coelho úmido.
Todas as jóias na lâmina do escudo:
matinal o coelho oscilando
seus bigodes sobre uma espiga de milho.
Que começos, que ouros, que trifólios,
o coelho, a rainha do jade, o frio que interrompe.
Mas o jade é também um carbúnculo entre o rio e o espelho,
uma prisão de água onde se espreguiça
o pássaro fogueira, desfazendo o fogo em gotas.
As gotas como peras, imensas máscaras
às quais o fogo ditou as escamas de sua soberania.
As máscaras feitas realezas pelas entranhas
que lhes ensinaram como o caracol
a extrair a cor da terra.
E a frieza do jade sobre as faces,
para proclamar sua realeza, seu peso verdadeiro,
seu rastro congelado entre o rio e o espelho.
Provar sua realidade pelo frio,
a graça de sua janela pela ausência,
e a rainha verdadeira, a prova do jade,
pela fuga da geada
em um breve trenó que traça letras
sobre o ninho das faces.
Fechamos os olhos, a neve voa.



( Trad. Haroldo de Campos)

Chamado do Desejoso

Desejoso é aquele que foge de sua mãe.
Despedir-se é lavrar um orvalho para uni-lo à secularidade da saliva.
A profundidade do desejo não está no seqüestro do fruto.
Desejoso é deixar de ver sua mãe.
É a ausência do acontecido de um dia que se prolonga
e é na noite que essa ausência vai afundando como um punhal.
Nessa ausência se abre uma torre, nessa torre dança um fogo oco.
E assim se alastra e a ausência da mãe é um mar em calma.
Mas o fugidio não vê o punhal que lhe pergunta,
é da mãe, dos postigos fechados, que ele foge.
O descendido em sangue antigo soa vazio.
O sangue é frio quando desce e quando se espalha circulizado.
A mãe é fria e está perfeita.
Se for por morte seu peso dobra e não mais nos solta.
Não é pelas portas onde assoma nosso abandono.
É por um claro onde a mãe ainda anda, mas já não os segue.
É por um claro, ali se cega e logo nos deixa.
Ai do que não anda esse andar onde a mãe não o segue mais, ai.
Não é desconhecer-se, o conhecer-se segue furioso como em seus dias, mas segui-lo seria o incêndio de dois numa só árvore,
e ela adora olhar a árvore como uma pedra,
como uma pedra com a inscrição de antigos jogos.
Nosso desejo não é pegar ou incorporar um fruto ácido.
O desejo é o fugidio
e das cabeçadas com nossas mães cai o planeta centro de mesa
e de onde fugimos, se não é de nossas mães que fugimos,
que nunca querem recomeçar o mesmo jogo, a mesma
noite de igual ilharga descomunal?



(Trad. Josely Vianna Baptista)

 

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Ah, que você escape


Ah, que você escape no instante
em que tenha alcançado sua melhor definição.
Ah, minha amiga, não queira acreditar
nas perguntas dessa estrela recém-cortada,
que vai molhando suas pontas em outra estrela inimiga.
Ah, se fosse certo que, à hora do banho,
quando, em uma mesma água discursiva,
se banham a imóvel paisagem e os animais mais finos:
antílopes, serpentes de passos breves, de passos evaporados,
parecem entre sonhos, sem ânsias levantar
os mais extensos cabelos e a água mais recordada.
Ah, minha amiga, se no puro mármore das despedidas
tivesses deixado a estátua que poderia nos acompanhar,
pois o vento, o vento gracioso,
se extende como um gato para deixar-se definir.


(Trad. Claudio Daniel)

Excertos do cap. VII do romance «PARADISO»

Dona Augusta preocupava-se com que a comida fosse a certa para um dia especial, embora sem perder a simplicidade familiar. Esta qualidade excepcional aparecia na toalha de renda, na louça com motivos verdes, filetes limitados por outros dourados. O esmalte branco, limpo especialmente para cintilar no jantar, resgatava na variação dos reflexos a multiplicidade dos rodos aproximados do fugitivo deslizar da própria imagem...

O falecimento de Cembita, a filha do ouvidor, a toalha, que lembrava a época das golas canuladas, passara a pertencer a D. Augusta, que só a exibia em ocasiões extraordinárias, como as que vira na juventude. No dia do primeiro convite para comer na casa da filha do ouvidora Andrés Olaya, aquela toalha, que Augusta recordava com bordados de uma magia volante, apresentava a delicada paciência na sua elaboração, como se, distante de ser desfeita cada noite, como o tecido de uma das memoráveis esperas, continuasse durante noites eternas, em que as abelhas segregassem uma estalactite de incríveis fios entretecidos.

D. Augusta destapou a terrina, de onde se erguia o vapor de uma espessa sopa de banana. – Queria rejuvenescer todos – disse – transportando-os à primeira infância e, para tal, pus na sopa um pouco de tapioca. Sentir-se-ão como crianças e vão começar a elogia-la como se a descobrissem pela primeira vez. Pus algumas folhas de rosas de milho, pois há tantas coisas de que gostamos quando éramos crianças e de que, infelizmente, não voltamos a desfrutar. Mas não se preocupem, não é a conhecida sopa do oeste, pois alguns gourmets, mal vêem o milho, pensam ver logo as carroças das emigrações para o oeste, no princípio do século passado, nas pradarias dos índios sioux – ao dizer isto, olhou para a mesa dos meninos, pois de forma intencional, acabara a sua tirada para apreciar como se centralizava a atenção dos netos. Só Cemi esticava o pescoço, querendo perseguir as palavras no ar, observava depois os primos, sobresaltado de que não ouvissem a pequena seta que a avó lhes tinha atirado. (...)

- D. Augusta preparou-nos tantas delícias que é necessário ter cuidado com a embolia cerosa, a mais perigosa das conhecidas – disse o doutor Santuce.

(...)
- Todos os males derivados do excesso de comida são inferiores, dizia Hipócrates – acrescentou o odontologista Demétrio, que sempre gostava de expor o seu conhecimento do corpo, discordando do Doutor Santuce – do que os males derivados do execesso de não comer. Acrescentemos outra opinião, agora a de um santo, Paulo chmado de Tarso, que aconselha aquele que não coma não fazer pouco de quem não come, aconselhando também vice-versa. Após a opinião de um certo santo, a de um demônio, Antônio Perez, o assassino que se revoltou, era de opinião que só os estômagos digeriam veneno. É verdade que José Marti adorava esta frase do secretário perverso. É preciso ser muito secretário e muito perverso para se apaixonar por uma vesga, sobretudo quando sabemos que esse olho vesgo foi beijado por Filipe II, que o diabo não deixe de abençoar pelos séculos dos séculos.

(...)
- Troquemos – intercedeu D. Augusta para encerrar com a ociosa discussão – o canário incandescente peo lagostim ensopado -. O segundo prato fez sua entrada; era um soufflé salpicado de mariscos, decorado por cima com uma esquadrilha de lagostins, dispostos em coro, unidos aos pares, distribuindo as pinças o vapor que se erguia da massa compacta como um coral branco. Uma massa de camarões gigantes, pescados pelos nossos pescadores que acreditavam ingenuamente que toda a plataforma de coral da ilha se encontrava incrustada de camadas de camarões, certamente tão grandes como os apanhados pelos pescadores gregos nos cemitérios de camarões, pois este animal, na idade madura, ao se aproximar a morte, deixa-se levar pela corrente que o leva até profundidades rochosas onde ele adere para morrer em conforto. Fazia parte também do soufflé o peixe chamado imperador, que D. Augusta só usava quando se cansava do pargo, cuja carne tinha sido extraída primeiro aos círculos e depois desfiada; lagostas que mostravam o assombro opalino com que as suas carapaças tinham recebido a interrogação do caldeiro a queimar-lhes os olhos saltitantes.

Depois deste prato de uma tão lograda aparência de cores vivas, num estilo flamejante já muito próximo do barroco, permanecendo gótico através do torneado da massa e pelas alegorias esboçadas pelos lagostins, D. Augusta quis que o ritmo da refeição abrandasse com uma salada de beterraba que recebera o toque amarelo da maionese, intercalada com aspargos de Lubeck.

Foi então que Demétrio cometeu uma gafe: ao espetar a beterraba a rodela saltou inteira, quis retificar o erro mas a massa avermelhada, picada irregularmente, voltou a sangrar(...)

Ao misturar-se a cor creme ancestral com a cor eclesiástica da beterraba, ficaram marcadas três ilhas de sangue sobre as rosáceas rendadas. Mas estas três manchas conferiram um verdadeiro relevo de esplendor à comida. Na luz, na resistente paciência do sangue vegetal, as três manchas entreabriram-se numa sombria expectativa.

(...)
Cemi acabou de se vestir para o colégio e a mãe, à passagem, mostrou-lhe o envelope que revelava certo apaziguamento num efêmero espaço de tempo. Mas ele recordou apenas o torpor da mão que tinha sacado da sua o lagostim para que se abraçasse à base de cristal da fruteira. Até parece ver novamente o lagostim trepando pela cascata da iridescência espargida pela bandeja com frutos. A fruteira voltou a derramar uma cascata de luz, mas agora o lagostim seguia, na refração das cores frutais, em direção de um cemitério de coral.


(Trad. Jorge Henrique Bastos)

o poema

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