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À
divindade agrada o jogo de criar,
diz Angelus Silesius
Me chamem O narrador,
O
Esfera
O
que tudo sabe desta história, e nada sabe
E
deixem que agora eu balbucie para vocês a história
de Iziel e Azael
E
para quem mais, se na terra inteira só nós somos
os animais para entender as palavras?
Nenhum outro, nem um só animal para entendê-las
é uma terra inteira, e nela só nós e
as palavras, e às vezes as entendemos, mas só
às vezes, muito raramente
Então,
para vocês, e para quem mais
esta história de como por amizade e ódio e indiferença
das estrelas se faz e se desfaz a vida
Antes, porém, ouçam uma terceira voz
Entendam, epígrafe
E ela nos diz: O homem vive envolto em sua própria
sombra e se admira de que tudo esteja escuro
Entendem?
Vozes sempre virão de fora nestes começos
Essas vozes da terra
Por
um caminho iremos, o de penumbra
À
minha, chamem a voz daquele que narra, e como deve ser, narrará
bem oculto
É bem no escuro da vida
Imaginem uma vasta floresta à noite
Vento e folhas de sombra.
Vento e folhas de sombra.
Imaginem
todo o tamanho desta vida que não existe até
se sentirem bem pequeninos olhando o céu até
os olhos doerem de tanto tentarem ir mais longe entre essas
luzes, as estrelas
Viram
como é grande? A imensa
E
agora ponham dois homens no meio da floresta e dessa noite
que já nos envolve, e escutem: eles estão conversando
Iziel das mãos brancas
Azael, o negro.
É
isso. Este é o começo de uma fábula que
avançará por entre grandes fendas e períodos
de silêncio como só se ouve na ausência
humana, a floresta às vezes contorcida, contorcida
o silêncio às vezes rompido não por essas
vozes tão baixas essas vozes, murmuradas: e sim, por
gritos que vêm de longe na noite, ou é bem perto
É mesmo em nós
As
mãos de Iziel muito brancas se movem
As
mãos escuras de Azael estão quietas
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