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Uma
espécie de murmurador na noite.
É isso a imaginação
Ela vem. Não se sabe bem de onde.
Eis o que temos. Um homem numa janela. Não há
como evitá-lo. E há vozes. Então é
só entregar-se,
esta viagem fala da vida e não vai parar antes do
fim.
Outra vez.
Como será?
O homem estava lá. Cego.
Quando o outro veio, ele disse:
- Me chame Jacinto. Eu estou aqui cego. Aqui é em
toda parte.
Sim. Em Santa Maria acontecem essas coisas.
Você veio para ouvir a história. Lhe disseram
por aí que eu sei como tudo se deu, então
você veio. Disseram onde eu moro. Trouxeram você
até a rua e apontaram a porta desta casa. Então
entre.
O outro homem entrou.
Ficou escutando.
Durante uma parte da tarde, o cego falou. E o outro ouvia.
Ele, o cego, disse:
- Não faz tanto tempo.
E eu lembro de tudo. Eu nunca esquecerei.
Ouça.
Foi como agora estou dizendo, com estas palavras. Você
pode não acreditar que fui avisado antes dos outros,
mas fui. Não há pelo que jurar. Há
apenas esta voz como ela é, e não dê
seu ouvido ao vento da noite, desta noite sem clarões,
para iluminar enigmas, isto se contorcerá com lâminas
por toda parte, dê seu ouvido só a esta voz
e deixe que o vento leve, também, a parte que toca
a ele nisto que vai ouvir. Outros também precisam
ficar sabendo como tudo se deu
Ouça.
A ave era toda vermelha. Estava lá, parada. Parecia
doente.
Foi assim que tudo começou.
Eu dei a ela o nome que quis, já que as coisas que
se conhece têm todas um nome de uso comum, mas as
outras, essas que vêm não se sabe de onde,
não se sabe nunca, a essas se pode dar o nome que
se quiser, é só abrir a boca e ficar com a
primeira palavra que sair, é só nisso que
há uma possibilidade de achar o nome oculto da coisa
oculta. E aquela não era uma ave como as outras,
isso eu vi logo.
- Curau.
Foi a primeira palavra que saiu da minha boca. Aquela boca
ficou assim viva. Curau. E ficou sendo esse o nome da ave
desde o dia de rumores e de uma mudez, a minha, quando abri
a porta e ela estava lá. Estava mesmo doente, não
fugiu quando me aproximei. Quis que entrasse em minha casa.
Cuidei dela. Logo ficou boa. Era forte. Grande. A ave.
É preciso que eu lhe diga: antes, eu estava de olhos
fechados, e vi tudo.
Foi antes de achar a ave. Eu tive um sonho.
Quando acordei, não entendi o que havia visto sem
meus olhos. No sonho.
Agora sei que tinha sido uma anunciação. Havia
visto os dias de medo que mais tarde vieram se instalar
entre nós
Quando acordei, fiquei revendo aquelas asas imensas,
uns olhos de fogo me espiavam do fundo da noite,
e no sonho que tive havia uma noite onde homens corriam,
fugindo também como as mulheres por ruas vagas, ruas
onde não pesavam as pedras,
fugindo como passaram a fugir também nas ruas reais
desta cidade. Gritando. Querendo se esconder.
Acordado do sonho, eu ainda não podia entender, vivendo
como vivia na ilusão de que só o que se vê
de olhos abertos é real, e espelho falso tudo o que
nos aparece quando se fecha os olhos. Não podia.
Havia aquela ave, ela voava por cima da cidade, ela mergulhava
sobre uma rua e se ouviam gritos. Os gritos.
Esse foi o início. E eu o vi.
Foi assim que a vida me avisou que o Curau ia chegar.
E depois ela, a vida, veja, veio pôr o Curau direitinho
na porta desta casa
Mais tarde entendi
Nós temos uns olhos, como eu tive, para tropeçar
por toda parte. Um espelho nos cega apesar do sol
Ele ainda está lá, no alto?
Ele ainda existe?
A noite hesita e nos recusa com esses olhos que temos para
nada
Foi tudo como eu disse.
Antes de voar entre os homens, o Curau voou em Mim, entre
os olhos que eu tinha, fechados, e a vida lá fora.
Voou primeiro num céu humano.
E então achei a ave e a levei para casa.
O medo veio para os outros só mais tarde.
Foi mais tarde que se começam a ouvir seus gritos.
Então já era o Curau, voando por cima da cidade.
Voava e eles gritavam o Curau. Curau. Lá vem ele
outra vez. E também as crianças gritavam.
Elas não deviam ter medo, porém.
O medo só veio para aqueles que já tinham
as suas velhas razões para ter medo,
esses já tinham o medo neles e passaram a ter medo,
então, do Curau. Esses têm medo de tudo. E
a ave era só a coisa agora visível que fez
o medo deles surgir, aquele medo andava pelas ruas com passos
que nos levarão, que levam sempre a uma terra não-sagrada.
Andavam assim na região de um deus sem Rosto, e no
olho esquerdo dele haviam enterrado um Espinho
Veja, tirando as crianças que têm medo reais
Não. Isso eu quero dizer de outro modo. Como entendi
Quando um menino gritava o Curau, o Curau, ele só
estava fazendo como os outros faziam, imitava
Se os adultos não tivessem medo, as crianças
também não teriam medo da ave
Ficariam nas suas redes, calmas. E a noite seriam sem espreitas,
para voar sem sustos os vôos infantis
Um Curau nunca ataca, nunca faz mal a uma criança.
Nunca se falou do ataque da ave a um menino. Ela fura somente
os olhos dos adultos. Você nunca vai ouvir dizer que
ela cegou uma criança
Outros, porém,
esses nem dormiam mais depois que a ave veio. Os adultos.
Tremiam à noite. Tinham pulos e espantos. Tinham
uma certeza: a de que a ave iam entrar pelas suas janelas
a todo instante e cegá-los, nessas casas onde depois
ficariam vagando, sem rumo, se dando contra as coisas duras
E os dias passavam
Havia o medo. Estava dentro. E ao redor.
Ouvi desmoronamentos.
É
que eles não entendiam.
Um Curau não faz mal.
Se era até preciso pedir a vinda dele.
- É preciso pedir que ele venha, isso eu dizia a
todos.
Dizia a eles:
- Todos devem pedir a vinda do Curau.
Devem pedir todas as noites e dizer como quem reza:
Vem, Curau, e me cega
Me livra das coisas que não mudam,
estes meus olhos não querem mais ver os dias assim
iguais
Me faz, Curau, cair
para dentro da noite que eu sei que sou,
para que tudo mude
para que eu volte a ter gosto pela vida
Curau,
isso todos deviam dizer, de olhos fechados,
eu não vejo mais nada
Não vejo os outros homens, há uma máscara
em cada rosto
Faz também esses outros se perderem na tua noite,
perderem os olhos com eu, faz esse bem a eles
Cega esta mulher que dorme ao meu lado, cega estes homens
ao redor de mim,
eles também só vêem a máscara
no meu rosto e não podem ver, como eu não
posso ver neles, sob a máscara, o rosto que tive.
E ainda tenho. E está oculto. Soterrado. Um ambiente
sem luz.
Vem, e te peço, não vejas a máscara
no rosto de uma criança. Isso eu te peço.
Pois nelas os dias vivem
Por isso deixa em paz os olhos delas
e fura só meus olhos, Curau, entrando por esta janela
com a tua luz negra.
Eu não sei mais ver
Isso era o que todos deviam pedir.
Isso eu dizia a eles.
Deviam se reunir nas igrejas e nas praças para pedir.
E também pedir sozinhos, como fazem aos seus santos
em voz baixa
- Peçam a vinda da ave e esperem que ela venha, eu
dizia.
E que atenda logo o pedido.
Veja. Eu.
Você está escutando um homem que já
teve os olhos furados pelo Curau, disse o cego ao homem.
O outro ouvia.
Agora o que eu sei é o que eu sei. Nada.
O outro ouvia e o cego disse a primeira coisa que a ave
fez foi me cegar. Acabar com os olhos que eu tinha. Gastos.
O homem em frente ao cego olhou para janela.
Mal teve forças de novo, continuava o cego, depois
de comer a minha comida, ela pulou em mim e veio esta noite
em que agora estou, aqui. Aqui é em toda parte. Nesta
noite eu espero pelo que virá, virão os dias
sem nome, eu sei
Espero e sei
Espero e escuto. As vozes vêm no vento
Espero e vou tocando as coisas. E entendendo.
Passo esta mão na cara de alguém e entendo
que está triste e de onde vêm as tristezas,
passo esta mesma mão na cara de um outro e entendo
o seu medo e de onde vem o Medo e para onde o Medo vai.
E de que é feito o Medo.
Então digo com voz lenta para que não se assuste
tenha paciência espere um dia a ave vai voltar
O homem diante do cego quis outra vez olhar para a janela.
Ela se foi, ouviu que o cego dizia.
Ele então quis saber o resto, o que tinha acontecido
depois.
Um dia ela foi embora, estava dizendo o cego.
Não se sabe para onde. Deve ter voltado para o lugar
de onde veio.
Estará agora num ninho cruel, num lugar oculto em
alguma parte da vida, longe ou perto de nós. Não
se sabe
Agora, nesta janela espero o Dia.
Esse Dia em que retornará, diz o cego. Será
numa tarde como esta talvez. Abrindo as nuvens. Quando a
ave voltar, estava dizendo. E então. Recomeçarão
os gritos. As fugas. Eu
espero aqui.
O homem ouviu que o cego lhe dizia, Fique, você veio
de longe, e espere a volta dela. Da ave.
O cego estava pedindo para tocar nos olhos dele. Deixou.
Venha cá, dizia o cego.
Deixe eu tocar nos seus olhos.
Os olhos.
Estes também. Os seus.
Todos assim.
Os seus são como os olhos que eu tinha. Olham para
fora da vida.
Livre-se deles também.
Ah mas você tem medo. Toco. Sei.
Vai ser mais um para correr pelas ruas quando a ave voltar.
Tapando os olhos, procurando um lugar para se esconder gritando
o Curau, Curau. Lá vem ele. Como eles gritavam. Tanto.
Os gritos. E mais tarde também nem fechará
mais seus olhos à noite, com medo de não ter
mais olhos para abrir de manhã. Para não ver
nada.
Empurrado pelo cego.
O homem se afastou.
O cego estava dizendo vá embora agora. Eu já
disse tudo. Agora eu quero ficar só. Ficar sentado
junto à janela. Cego.
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