Viagem a Andara
o livro invisível

A lua sangrando sobre nós
(livro inédito)

Então, como um outro Iziel,
ah Iziel, cego, ficasse lá se batendo nas coisas duras da vida, no Paraíso
e querendo as raízes dos alimentos do ser, Oniro disse:

- Tudo vem como sombra do Um e para o Um
volta como sombra
Aqui, na breve Residência, a vida,
imersos nesta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos,
as sombras estão no Vários,
e se tornam coisas
para se darem em alimento umas às outras, enquanto aqui permanecerem

podendo esse alimento ser
visível e invisível
e visíveis e invisíveis as bocas nas coisas, sempre famintas umas das outras

e também podendo ser os alimentos
bênçãos e venenos

assim como podendo ser as bocas por onde se colhe o alimento
abençoadas e venenosas,

havendo ainda os alimentos simulacros
e as bocas simuladas na colheita.

Quanto à permanência na breve Residência, a vida,
imersos nesta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos,
as coisas podem optar pela Fome umas das outras, e se devorando se devolverem como sombras do Um ao Um

ou pelo Jejum das outras.

Pois há um dom que nos é dado pelo Um
para alimentar a permanência:

aliado dos jejuns, esse Dom é o da
Amizade das coisas pelas coisas.