Pão

Do teu pão
faço a hora
movo a massa
o fogo queima a sua lição

e a mão anônima
em seu naufrágio.

O rigor
leveda sobre a mesa
Trabalho, úlcera
quando anoitece

O pão
faz o tempo
comer o alimento
.

A noite passa,

migalhas
.

Às cinco
o homem desperta
cinco são os veios
do rio

Às cinco
o homem pensa,
o relógio canta o dia
a luz cai sobre
o copo e a sede

o pão e o vidro, vivos, no forno.

A água atiça a grama,
lava o esmalte,
noturna
.
o homem sonha.
.

Morta

O teu suicídio líquido
inundando-me
o corpo anoitecido entre folhas
a folia do teu riso
e o gume do silêncio
.
lancina a ferida.
.
A lágrima morta
seca sobre a pedra.
A luz sidérea
corta
os olhos ocos
e a palavra apocalíptica
te ensina
e assina
sobre o túmulo
o título do sangue.
.
É o teu poder
e a tua denúncia
.
a chuva cai
soletrando a pedra.
.

Alvo

Pés
que pisaram
a lama
olhos
que escavaram
o húmus
mãos
que amassaram
o fruto

hoje seguem
outras sendas por criar

nova lei e barco
para as águas turvas de si mesmo.

Caminhas para lá
onde o livro se fecha
perante a letra que se escreve
onde o grito clama
à vertigem que o impele.
.

Restos da água estagnada

Bebe
os restos da água estagnada
no estilhaçado copo
da memória errática.

Sacia
a sede do corpo antepassado o olhar enfrentando a porta do mundo que arquivaste

Abriste túneis para a perdição
com as luzes que te cegaram
Recorda agora
os dias devassos nas entranhas
em que tocaste o idioma
a vacilar sobre a vertigem da queda inicial

A caneta antiga
risca imagens no deserto
grafa
a palavra que será todas
cala
será todas e nenhuma

na solidão.
.