Velocímano

Aquiles há que lhes mostrar
o calcanhar alvejado,
e contorcer-se vencido
sobre o cavalo.
Mesmo que Circe o torne Sátiro,
e cálcio-botas de ouro
para encouraçá-lo os cascos.
Romperei-os impiedoso,
e cravar-me-ei
ao osso, à viga que sustenta
o inabalável velocímano.

A Flecha e seu Alvo

A flecha passa e eu a ouço,
é de aço e osso a flauta!
(eu alço ao seu zunido ao céu)
o som atinge-me o pescoço,

ah! tinge meu sangue o véu.
Nesso era moço, Hérecles! – E eu?
Hera quis-me nesse rio, réu,
e Dejanira, seu. Nesso e eu, nisso!

A flecha passa e eu a ouço,
é de aço e osso a flauta!
(eu alço ao seu silêncio ao céu)
som de (Sá)tiro ao pescoço
.

Coágulo

Nenhuma idéia
para um poema novo!...
e Hermes há dias
não traz noticias.
As palavras aquém das letras
não se formam,
e não há fôrma que as modele,
a não há
forma que as conforme.
(a Musa Gozosa e
o Gozo Inconcluso)
Se ao menos Circe me amasse
nesta noite,
ou transformasse-me em cavalo,
ou até mesmo
me ofertasse em sacrifício:
Odes eu faria a isto, e desfaria
este coágulo de letras
nas artérias deste ofício.
.
Nenhuma idéia
para um poema novo!...
Afrodite recatou-se
e já não fode como antes,
e eu aqui inerte,
passo a
língua no horizonte.

Alvo

Enquanto passas,
o calcanhar de Aquiles
contrai-se
em seu castelo ósseo,
à espera do açooo.

Mípide

Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho.
És tu pra mim – Suprema – a virgem a vir gentil
à pedra onde acampo e componho esta balada
em castanholas de Espanha – dispa nhá moça
essa blusa de lã, enquanto Dylan escreve uma valsa,
e eu alço à balada lá da lápide onde deitas
e pedespida que eu a ame em Kiuamí.
Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho.
És tu pra mim – Estupenda – Eurípides a me pedir
prenda em Mípide, o leito de pedra em que te deitas
quite contigo-mesmo-e-comigo, ao cume gozoso
do mês vindouro – eu vim do ouro por ti – do outubro-pasto,
do outro bruto a te cobrir o corpo debruçado.
Não o touro que te estupra o sonho – O casto!

Joãozinho Gomes