O Espinho de Ferro e a Carne

Para que morras com a flecha encravada no peito
e a minha carne sangre por ti, atravessei a tempestade.

Do teu sangue nascerá um astro incolor:
e perfumará o universo – O Mênstruo de Hera –
a bélica rosa nos lábios de Zeus. E brotará na pedra
como cacto a ambrosia. A Flor do Fogo.

(O Espinho de Ferro e a Carne)
A Rosa da Morte tatuada em teus seios.
O Alvo da Arte em ti, e a cega paixão do arqueiro.

Para que morras com a flecha encravada no peito
e a minha carne sangre por ti, atravessei a eternidade
.

Jalva

Já na aljava almejava
alvejá-la, Jalva, (noiva
de Gilvá, alva, rubra,
enrubescida loba
com felpos de alvorada)

e mandá-la a Caronte
em mandala de estrelas,
– e tê-la na barca –
constelação de mulher molhada,
toura em sacrifício ao poeta
destacado de Ítaca,
com uma estaca no peito.

Já na aljava almejava
alvejá-la, Jalva, e já enojava
o escudo em teu peito,
a armadura de ouro,
as prendas de Hefesto.

E manifestava-me
por isto, e me infestava
de tal gesto, gestando o previsto
no abismo da aljava.

A mosca, o alvo, a vulva
almejada à mira
de Moscalvo, o Arqueiro.
E eu o arco retesado
retinha o zinabre do teu ubre,
antes mesmo de alvejá-la
e alojar-me em teu seio,
e ser salubre feito o homem
que a cobre, ou o cobre que
enfeita o teu deslumbre
.

Imo

Íntimo do estímulo, em ti, me dei!
Intimidei teu íntimo no último ato
de um beijo extinto – Imunizei
teu imo com isto (Gozo de Dioniso

ao teu instinto) Absinti-me em ti,
ente abissal! Beijei teu corpo à cor
púrpura do ressinto, à cara do poente.
– No bosque, lembrei de Afrodite

instigando-me. Oh! seios em ristes!
(diga-me Quíron: alguém resiste?)
ardi em ti, intimamente em riste,
e não resististes, e gozastes, e ristes
.

Devaneio

Ártemis ao espelho
depila-se nua,
– o peixe filetado
ao sal do oceano –
e o meu olho
à fresta do pano
é puro devaneio.
Quem comerá este
salmão olímpico?
.
Este peixe aberto ao meio?

A Rosa de Ares

Oh! Puta-Mãe, quantos filhos
defloraste no centro de Tebas
e os enviaste ao lascivo antro
do teu mortal e vã orgasmo?

O teu inútil orgasmo ao Cosmos
é um cogumelo de lodo e sangue
(o caranguejo come o homem!)
vingado à lama orgânica do caos:

dessa explosão ultra-vulvática
– fodam-se lesmas e musgos! –
fez-se a guerra. A Rosa de Ares,
a bomba. Volátil como a pomba
.

Joãozinho Gomes